Os Ribeiros Também Sonham com o Mar

Os ribeiros nunca começam grandiosos.

Eles nascem discretos, escondidos entre pedras húmidas, raízes antigas e silêncios da montanha. No princípio, são apenas um fio de água tímido, quase invisível aos olhos apressados do mundo. Um murmúrio leve entre a terra e o musgo. Sem impressionar… sem dar nas vistas… nada que pareça destinado à imensidão.
E, ainda assim, seguem… sem mapas… sem rotas pré-definidas… só umas margens definem o caminho…

Contornam obstáculos, atravessam terrenos difíceis, aceitam quedas, curvas e desvios, desafiam montanhas, sem lutar… a água enfrenta a pedra pela persistência… e consegue dar-lhe a volta!
E talvez exista nisso uma das lições mais profundas da vida.

A pressa pertence aos homens

Vivemos obcecados pela velocidade. Queremos respostas rápidas, conquistas imediatas, destinos alcançados antes do tempo. Medimos o valor da vida pela urgência com que chegamos a algum lado.

Os ribeiros nunca tiveram pressa… correm porque nasceram para avançar, não para competir.
O ribeiro não grita para ser ouvido. Não precisa provar nada. Apenas segue o seu caminho, mesmo quando ninguém repara nele... às vezes seca... mas a àgua volta sempre...
E talvez as pessoas mais fortes sejam exatamente assim… ganha a persistência…

Todos os rios procuram pertença

No fundo, cada ribeiro transporta uma saudade invisível do mar… move-se na sua direção desde o primeiro instante. Como se existisse dentro dele uma memória antiga da imensidão.

Há algo profundamente humano nisso.
Também nós passamos a vida a caminhar para lugares que nunca vimos, guiados por uma intuição difícil de explicar. Procuramos sentido, pertença, paz, amor… como quem procura um oceano interior.
E pelo caminho perdemo-nos muitas vezes.

Há dias em que a vida parece lama. Outros em que as pedras surgem demasiado grandes. Existem quedas inesperadas, secas emocionais e tempestades que quase nos fazem acreditar que não vale a pena continuar.

Mas o ribeiro continua… mesmo frágil, continua.
Talvez seja essa a verdadeira essência: perceber que há algo dentro de nós que insiste em avançar, mesmo quando tudo à volta pede desistência.


O mar não rejeita nenhum ribeiro

Quando finalmente chega ao oceano, o ribeiro deixa de ser pequeno.
Não porque tenha deixado de ser aquilo que era, mas porque faz parte de algo maior. Afinal cada curva, cada pedra, cada desvio fazia parte do caminho.

O mar recebe todas as águas sem perguntar de onde vêm… as limpas, as turvas.. as calmas e as revoltas.
E talvez a vida também seja isto: uma longa viagem até ao lugar onde finalmente deixamos de lutar contra quem somos.

No fim, os ribeiros ensinam-nos uma verdade simples e rara: não é preciso nascer imenso para chegar ao infinito. by pedro de melo 2026

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O Fio da Navalha: Escrever Sem Medo

Porquê "O Fio da Navalha"?

A pergunta é legítima. Porque não “O caderno das ideias”? Ou “As palavras soltas”? Ou até “Crónicas com café”? Mas não. Tem de ser este título: “O fio da navalha.”

E porquê?

Porque chegou o momento de cortar o mal pela raiz. Sem hesitação. Com precisão. E, verdade seja dita, porque não há tesouras cá por casa — ou pelo menos nunca estão à mão quando mais se precisa. Mas navalhas… essas aparecem sempre. Mesmo que sejam metáforas afiadas.

Este é um reencontro com a escrita. Não tardio, não forçado. Simplesmente chegou a hora. Porque as coisas acontecem quando têm de acontecer. Nem antes, nem depois. O tempo é sábio. E às vezes, para voltar a escrever, é preciso primeiro calar. É preciso viver.

Um espaço de vida — com vida

“O fio da navalha” não é um diário. Nem um manifesto. Nem sequer um espaço com rumo certo. É um lugar onde as palavras serão cruas, espontâneas, talvez até desajustadas. Não por rebeldia, mas por autenticidade.

Este será um espaço vivo. E como tudo o que está vivo, pode mudar. Crescer. Adaptar-se. Ou simplesmente desaparecer por uns tempos, sem explicações.

Não haverá regras. Só uma:
  • Se leres hoje, volta daqui a um mês e descobre as diferenças.
Porque aqui, os textos podem ser alterados. Atualizados. Rasurados. Hoje fazem sentido, amanhã talvez não. A escrita não é monumento de pedra — é carne e osso. É respiração. É momento.

E se algo for reescrito, que seja. Sem pedido de desculpas. Sem necessidade de coerência. Porque a vida também não o é.

O que não vais encontrar aqui

Não vais encontrar localizações geográficas. Nem marcas de tempo. Não interessa onde estou, a que horas escrevo, ou em que canto do mundo me sento para despejar estas linhas.

O espaço é o agora. E o agora é onde a palavra acontece.

Se houver mesmo curiosidade… pergunta. Quem sabe até respondo. Ou não. Porque, no fundo, nem sempre interessa onde o corpo está, se a alma está longe.

Assuntos que doem — ou que salvam

Neste espaço, os temas serão próximos. Pessoais. Até egoístas. Porque, por muito que se tente disfarçar, todos escrevemos sobre nós. Mesmo quando dizemos que não. Mesmo quando usamos metáforas. Mesmo quando inventamos personagens, realidades ou histórias.

É uma espécie de confissão. Uma conversa entre egos — ou cegos, como preferirem entender.

Podem surgir reflexões banais, dores profundas ou devaneios ridículos. E está tudo certo. Porque isto não é jornalismo, nem literatura. É escrita crua. Esfolada. Sem rascunho.

Terceira pessoa? Não, obrigado.

Ah, sim. Quase me esquecia. Uma certeza absoluta: não dá para escrever na terceira pessoa.

Já tentei. Em tempos. Criei máscaras. Personagens. Vozes distantes. Quis escrever como se fosse outro, apontar verdades, lançar provocações, sem que soubessem que era eu. Queria esconder-me. Proteger-me. Ou talvez enganar-me.

Mas não deu. O ego é maior.

A primeira pessoa impõe-se. Grita. Reclama espaço. E é essa que fica. A que entra com as botas sujas e se senta sem pedir licença. A que diz o que pensa, mesmo quando não devia. A que fecha a porta, no fim, e fica em silêncio.

Sim, será sempre essa primeira pessoa — a que escreve, a que sente, a que parte e volta.

Cortar o medo, não as pontas

Este “fio da navalha” não serve para cortar pontas espigadas. Serve para ir fundo. Para abrir espaço onde o medo mora. Para expor dúvidas, angústias, alegrias… sem maquilhagem.

Porque escrever, para mim, é despir-me devagar. Palavra a palavra. Corte a corte. E se às vezes sangra… é sinal de que ainda estou vivo.

Talvez este espaço seja isso mesmo: uma ferida aberta. Mas cuidada. Com intenção. Com arte.

Conclusão: E tu, escreves no fio da navalha?

Cada um tem o seu fio. O seu limite. O seu ponto onde a coragem encontra o medo e decide avançar. Este é o meu.

Talvez escreva para mim. Talvez para ti. Talvez para ninguém. Não interessa.

O que importa é que voltei. E volto assim: sem desculpas, sem moldes, sem rede.

Se leres hoje… volta daqui a um mês. Prometo que já não será igual. Porque eu também já não serei.
by pedro de melo, 2019
crónicas distantes, sem tempo, sem nexo, para usares e abusares... copia, altera, faz tuas as palavras...
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by pedro de melo, aquele a quem, em 2020 roubaram o mar...
 

 

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INDEX CULINARIUM XXI, Divulgação Global
3. O APARELHO DIGESTIVO        
4. A TEORIA DOS PRODUTOS        
13. AS ENTRADAS, ACEPIPES         
24. A COZINHA FRIA         
25. SOBRE SOBREMESAS          

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