Sobre Ribeiros Secos

Quando as palavras deixam de correr

As palavras fluem leves, transparentes, encontrando passagem entre as diferenças. Há perguntas, respostas, confidências e silêncios confortáveis. A comunicação corre sem esforço, levando afeto de uma margem à outra.

Depois, quase sem se perceber, a água começa a faltar.

As conversas encurtam. As respostas tornam-se frias. As perguntas deixam de ser feitas porque já se conhece, já se sente, o peso da ausência que virá depois.

E o ribeiro seca.

O silêncio que se acumula

Numa relação, mesmo de amizade e às vezes até de cumplicidade, nunca se deixa de comunicar de repente; os sinais vão aparecendo e marcando os dias…

palavras que ficam por dizer. Mal-entendidos que ninguém esclarece; pedidos de desculpa ignorados. E isso dói… As mágoas depositam-se no fundo, como pedras que desviam o curso da água.

A proximidade torna-se distância… é pena… deixar de fluir…


As margens também se afastam

Quando a comunicação desaparece, cada pessoa começa a construir a sua própria versão do silêncio… e fica com ela!

Uma acredita que já não vale a pena falar. A outra espera que alguém dê o primeiro passo. E ambas permanecem paradas, olhando para o leito vazio daquilo que um dia correu fluido, sem compromisso, sem negociar seja o que for.


Nem sempre falta sentimento.

Por vezes, falta coragem, e um ribeiro seco não é necessariamente um ribeiro morto… à espera da chuva em dias secos de verão… blá, blá, blá

A água pode regressar.

Mas precisa de verdade, escuta e vontade. Precisa que alguém retire as pedras, abra caminho e permita que as palavras voltem a correr.

Porque relações, mesmo amizades, não sobrevivem apenas de lembranças… Precisam de presença..

E quando as palavras deixam de fluir, até os afetos mais profundos podem transformar-se num leito seco, cheio de marcas de tudo aquilo que um dia passou por ali… e é pena!  pedro de melo 2026

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