
Quebrar o gelo Há silêncios que conseguem afastar duas pessoas mais do que qualquer oceano ou fronteira… Não surgem de repente. Instalam-se devagar, quase sem serem notados. Uma palavra que ficou por dizer. Um gesto que não foi compreendido. Uma mágoa guardada para evitar uma discussão. As conversas tornam-se mais curtas. As respostas são parcas de palavras. Os olhares mais distraídos. Perguntas evitam-se para não ouvir respostas. O gelo começa assim… normalmente com pequenos cristais de afastamento que se acumulam ao longo do tempo. Nesse enredo não tens muitas possibilidades de desvio, a escolha fica pelo cenário do afastamento definitivo ou do reencontro… tão simples quanto isso. Porque quebrar o gelo exige coragem. Exige que alguém dê o primeiro passo sem garantia de resposta. Que alguém estenda a mão sem saber se encontrará outra do lado de lá. Que alguém arrisque mostrar vulnerabilidade depois de ter passado tanto tempo a proteger-se. E o orgulho raramente ajuda… ele constrói muralhas onde o coração gostaria de construir pontes. O calor das pequenas coisas O gelo quase nunca se quebra com estrondo, com martelo! Derrete. Devagar. São os pequenos gestos que começam a devolver humanidade a uma relação que parecia presa num longo inverno. Tal como o sol não derrete um lago gelado de um momento para o outro, também a confiança precisa de tempo para regressar. Mas regressa... Quando existe vontade... Há feridas que precisam de ser ouvidas Quebrar o gelo significa criar espaço para que aquilo que aconteceu possa finalmente ser compreendido. Muitas vezes, aquilo que separa duas pessoas não é o erro em si, mas a falta de escuta. O sentimento de que a própria dor nunca encontrou lugar na conversa. Quando alguém se sente verdadeiramente ouvido, algo muda. As defesas baixam... Os muros perdem altura... A beleza do degelo Porque quando o gelo finalmente cede, não ouvimos apenas o som da água a correr no ribeiro… sentimos que o mar não está longe. by pedro de melo 2026
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O Fio da Navalha: Escrever Sem Medo Porquê "O Fio da Navalha"? A pergunta é legítima. Porque não “O caderno das ideias”? Ou “As palavras soltas”? Ou até “Crónicas com café”? Mas não. Tem de ser este título: “O fio da navalha.” E porquê? Porque chegou o momento de cortar o mal pela raiz. Sem hesitação. Com precisão. E, verdade seja dita, porque não há tesouras cá por casa — ou pelo menos nunca estão à mão quando mais se precisa. Mas navalhas… essas aparecem sempre. Mesmo que sejam metáforas afiadas. Este é um reencontro com a escrita. Não tardio, não forçado. Simplesmente chegou a hora. Porque as coisas acontecem quando têm de acontecer. Nem antes, nem depois. O tempo é sábio. E às vezes, para voltar a escrever, é preciso primeiro calar. É preciso viver. Um espaço de vida — com vida “O fio da navalha” não é um diário. Nem um manifesto. Nem sequer um espaço com rumo certo. É um lugar onde as palavras serão cruas, espontâneas, talvez até desajustadas. Não por rebeldia, mas por autenticidade. Este será um espaço vivo. E como tudo o que está vivo, pode mudar. Crescer. Adaptar-se. Ou simplesmente desaparecer por uns tempos, sem explicações. Não haverá regras. Só uma:
Porque aqui, os textos podem ser alterados. Atualizados. Rasurados. Hoje fazem sentido, amanhã talvez não. A escrita não é monumento de pedra — é carne e osso. É respiração. É momento. E se algo for reescrito, que seja. Sem pedido de desculpas. Sem necessidade de coerência. Porque a vida também não o é. O que não vais encontrar aqui Não vais encontrar localizações geográficas. Nem marcas de tempo. Não interessa onde estou, a que horas escrevo, ou em que canto do mundo me sento para despejar estas linhas. O espaço é o agora. E o agora é onde a palavra acontece. Se houver mesmo curiosidade… pergunta. Quem sabe até respondo. Ou não. Porque, no fundo, nem sempre interessa onde o corpo está, se a alma está longe. Assuntos que doem — ou que salvam Neste espaço, os temas serão próximos. Pessoais. Até egoístas. Porque, por muito que se tente disfarçar, todos escrevemos sobre nós. Mesmo quando dizemos que não. Mesmo quando usamos metáforas. Mesmo quando inventamos personagens, realidades ou histórias. É uma espécie de confissão. Uma conversa entre egos — ou cegos, como preferirem entender. Podem surgir reflexões banais, dores profundas ou devaneios ridículos. E está tudo certo. Porque isto não é jornalismo, nem literatura. É escrita crua. Esfolada. Sem rascunho. Terceira pessoa? Não, obrigado. Ah, sim. Quase me esquecia. Uma certeza absoluta: não dá para escrever na terceira pessoa. Já tentei. Em tempos. Criei máscaras. Personagens. Vozes distantes. Quis escrever como se fosse outro, apontar verdades, lançar provocações, sem que soubessem que era eu. Queria esconder-me. Proteger-me. Ou talvez enganar-me. Mas não deu. O ego é maior. A primeira pessoa impõe-se. Grita. Reclama espaço. E é essa que fica. A que entra com as botas sujas e se senta sem pedir licença. A que diz o que pensa, mesmo quando não devia. A que fecha a porta, no fim, e fica em silêncio. Sim, será sempre essa primeira pessoa — a que escreve, a que sente, a que parte e volta. Cortar o medo, não as pontas Este “fio da navalha” não serve para cortar pontas espigadas. Serve para ir fundo. Para abrir espaço onde o medo mora. Para expor dúvidas, angústias, alegrias… sem maquilhagem. Porque escrever, para mim, é despir-me devagar. Palavra a palavra. Corte a corte. E se às vezes sangra… é sinal de que ainda estou vivo. Talvez este espaço seja isso mesmo: uma ferida aberta. Mas cuidada. Com intenção. Com arte. Conclusão: E tu, escreves no fio da navalha? Cada um tem o seu fio. O seu limite. O seu ponto onde a coragem encontra o medo e decide avançar. Este é o meu. Talvez escreva para mim. Talvez para ti. Talvez para ninguém. Não interessa. O que importa é que voltei. E volto assim: sem desculpas, sem moldes, sem rede. Se leres hoje… volta daqui a um mês. Prometo que já não será igual. Porque eu também já não serei. |
by pedro de melo, 2019 |

INDEX CULINARIUM XXI, Divulgação Global







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