
A TRAVESSIA DO DESERTO Quando pensamos num deserto, imaginamos areia sem fim, calor abrasador, horizontes vazios… em imagens mais elucidativas uns camelos para completar. Pensamos em lugares distantes, difíceis e inóspitos; é verdade que eles existem e são assim nas imagens que nos vão passando nos écrans por aí. Áridos, secos… Depois existem os desertos mais exigentes que não vemos na geografia ou no écran. Aqueles que existem dentro de nós. Que nos secam a alma… Aqueles períodos da vida, uns mais curtos, outros mais longos, outros que se sentem como eternos, em que tudo parece suspenso. Os dias sucedem-se sem entusiasmo, os sonhos perdem cor e o futuro transforma-se numa linha difusa que mal conseguimos distinguir ao longe. São tempos de espera, de dúvida e de resistência. Dias em que os trilhos no deserto se perdem nas marcas da areia. E, nós, cheios de sede… ávidos de perspetivas. Tempos em que caminhamos sem saber exatamente para onde, há procura no horizonte de um oásis qualquer, verde de tanta água por perto. E só apanhamos miragens… uns pingos só não matam a sede. A solidão dos grandes percursos O mais difícil nesta travessia não é a distância que também não conhecemos, mas a sensação de que o caminho nunca mais acaba, num percurso com tanto de individual, porque engloba a alma de cada um, como de coletivo. Quem nunca atravessou desertos que se mostre, por favor. Há momentos em que olhamos em redor e não encontramos sinais de mudança. Nenhuma sombra onde descansar. Nenhuma resposta para as perguntas que nos acompanham. E é precisamente aí que nasce o verdadeiro desafio. Continuar. Dar mais um passo quando a vontade é parar. O deserto tem uma forma muito própria de ensinar. Retira-nos o excesso deixando apenas o essencial para a travessia… a meta. E é andar, se necessário pedir água pelo caminho por favor… As travessias difíceis. Entramos nelas convencidos de que não temos forças suficientes para as enfrentar. Mas, passo após passo, descobrimos recursos interiores que desconhecíamos. Aprendemos a suportar mais do que imaginávamos. Aprendemos a esperar. Aprendemos a confiar quando não existem garantias. E, sem nos apercebermos, tornamo-nos diferentes, não necessariamente mais duros, mas mais profundos. Nenhum deserto dura para sempre Por mais árido que seja o caminho, existe sempre um horizonte para além dele. E, no final, pode haver surpresas, talvez não encontremos exatamente aquilo que procurávamos quando iniciámos a jornada. Talvez a vida nos surpreenda com destinos diferentes, mas chegamos. E quando olhamos para trás, percebemos que afinal o deserto não serviu apenas como passagem, mas serviu para nos transformar. Porque há caminhos que nos levam a um lugar, e há travessias que nos levam ao encontro de nós próprios. No fim, são essas que deixam as marcas mais profundas e as lições mais duradouras, com ou sem água… by pedro de melo, 2026
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O Fio da Navalha: Escrever Sem Medo Porquê "O Fio da Navalha"? A pergunta é legítima. Porque não “O caderno das ideias”? Ou “As palavras soltas”? Ou até “Crónicas com café”? Mas não. Tem de ser este título: “O fio da navalha.” E porquê? Porque chegou o momento de cortar o mal pela raiz. Sem hesitação. Com precisão. E, verdade seja dita, porque não há tesouras cá por casa — ou pelo menos nunca estão à mão quando mais se precisa. Mas navalhas… essas aparecem sempre. Mesmo que sejam metáforas afiadas. Este é um reencontro com a escrita. Não tardio, não forçado. Simplesmente chegou a hora. Porque as coisas acontecem quando têm de acontecer. Nem antes, nem depois. O tempo é sábio. E às vezes, para voltar a escrever, é preciso primeiro calar. É preciso viver. Um espaço de vida — com vida “O fio da navalha” não é um diário. Nem um manifesto. Nem sequer um espaço com rumo certo. É um lugar onde as palavras serão cruas, espontâneas, talvez até desajustadas. Não por rebeldia, mas por autenticidade. Este será um espaço vivo. E como tudo o que está vivo, pode mudar. Crescer. Adaptar-se. Ou simplesmente desaparecer por uns tempos, sem explicações. Não haverá regras. Só uma:
Porque aqui, os textos podem ser alterados. Atualizados. Rasurados. Hoje fazem sentido, amanhã talvez não. A escrita não é monumento de pedra — é carne e osso. É respiração. É momento. E se algo for reescrito, que seja. Sem pedido de desculpas. Sem necessidade de coerência. Porque a vida também não o é. O que não vais encontrar aqui Não vais encontrar localizações geográficas. Nem marcas de tempo. Não interessa onde estou, a que horas escrevo, ou em que canto do mundo me sento para despejar estas linhas. O espaço é o agora. E o agora é onde a palavra acontece. Se houver mesmo curiosidade… pergunta. Quem sabe até respondo. Ou não. Porque, no fundo, nem sempre interessa onde o corpo está, se a alma está longe. Assuntos que doem — ou que salvam Neste espaço, os temas serão próximos. Pessoais. Até egoístas. Porque, por muito que se tente disfarçar, todos escrevemos sobre nós. Mesmo quando dizemos que não. Mesmo quando usamos metáforas. Mesmo quando inventamos personagens, realidades ou histórias. É uma espécie de confissão. Uma conversa entre egos — ou cegos, como preferirem entender. Podem surgir reflexões banais, dores profundas ou devaneios ridículos. E está tudo certo. Porque isto não é jornalismo, nem literatura. É escrita crua. Esfolada. Sem rascunho. Terceira pessoa? Não, obrigado. Ah, sim. Quase me esquecia. Uma certeza absoluta: não dá para escrever na terceira pessoa. Já tentei. Em tempos. Criei máscaras. Personagens. Vozes distantes. Quis escrever como se fosse outro, apontar verdades, lançar provocações, sem que soubessem que era eu. Queria esconder-me. Proteger-me. Ou talvez enganar-me. Mas não deu. O ego é maior. A primeira pessoa impõe-se. Grita. Reclama espaço. E é essa que fica. A que entra com as botas sujas e se senta sem pedir licença. A que diz o que pensa, mesmo quando não devia. A que fecha a porta, no fim, e fica em silêncio. Sim, será sempre essa primeira pessoa — a que escreve, a que sente, a que parte e volta. Cortar o medo, não as pontas Este “fio da navalha” não serve para cortar pontas espigadas. Serve para ir fundo. Para abrir espaço onde o medo mora. Para expor dúvidas, angústias, alegrias… sem maquilhagem. Porque escrever, para mim, é despir-me devagar. Palavra a palavra. Corte a corte. E se às vezes sangra… é sinal de que ainda estou vivo. Talvez este espaço seja isso mesmo: uma ferida aberta. Mas cuidada. Com intenção. Com arte. Conclusão: E tu, escreves no fio da navalha? Cada um tem o seu fio. O seu limite. O seu ponto onde a coragem encontra o medo e decide avançar. Este é o meu. Talvez escreva para mim. Talvez para ti. Talvez para ninguém. Não interessa. O que importa é que voltei. E volto assim: sem desculpas, sem moldes, sem rede. Se leres hoje… volta daqui a um mês. Prometo que já não será igual. Porque eu também já não serei. |
by pedro de melo, 2019 |

INDEX CULINARIUM XXI, Divulgação Global






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