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Zangado com o Mar

Há dias em que a dor se torna tão pesada que procuramos culpados em todo o lado. Num desses dias, encontrei o meu pressuposto culpado no mar e falei com ele…

Fiquei sentado nas rochas, não sou muito de areia, diante dele durante largos minutos, a olhar as ondas que chegavam e partiam com a indiferença de quem não conhece a compaixão. O vento soprava forte, como é normal ali, e a água continuava o seu movimento eterno, como se nada no mundo tivesse importância.

E foi então que me zanguei.

Zanguei-me com aquele imenso azul que tantas vezes me servira de refúgio. Pela primeira vez, não o procurei para encontrar paz. Procurei-o para lhe pedir explicações.

Porque não me levas contigo?

Olhei para as ondas e senti uma revolta antiga a subir dentro de mim.

Tantas embarcações já engoliste. Tantas almas desesperadas já levaste contigo, tantos segredos guardas nas suas profundezas. Tantas histórias e dramas que carregas, mas eu não tenho valor para ti… que nem me queres levar…. Sussurrei-lhe entre duas ondas…

Perdido entre dores, desilusões e cansaços que pareciam maiores do que a própria vida, implorei:

"Porque não me levas contigo?" Implorei mais uma, várias vezes...

O mar continuava a responder da única forma que conhece: avançando e recuando. Sem palavras. Sem julgamentos.

A resposta escondida nas entrelinhas das ondas… que em S. Pedro de Muel falam diferente. Ali também nenhuma onda vem para ficar...

Todas chegavam com força e desapareciam logo depois. Até as maiores acabavam por se desfazer na areia.

Foi então que percebi que talvez o mar não estivesse a ignorar a minha dor. Talvez estivesse a tentar mostrar-me algo.

Nada permanece para sempre.

Nem a alegria… Nem a tristeza… Nem as feridas que julgamos eternas.


O mar não me quis levar e talvez ainda bem. Não era a hora… não havia argumentos para tal viagem…

Talvez o mar não me tenha levado porque certas batalhas não terminam na fuga. Terminam na permanência… mas ele lá sabe… é mais velho que eu…

Há momentos em que tudo dentro de nós pede para desistir. Para abandonar a luta. Para entregar o leme ao cansaço.

Mas a vida tem uma forma curiosa de resistir.
Mesmo quando a esperança parece ausente.
Mesmo quando o coração se sente derrotado.
Mesmo quando a alma já não encontra razões para acreditar.

E fiquei… por ali… a rir-me dele… a pensar no Gin Tonic que me espera lá em baixo…

Quando desci das rochas em direção ao bar, a zanga já não era a mesma.

O mar continuava imenso. As ondas continuavam a quebrar. O vento continuava a soprar. Nada tinha mudado. Exceto eu…

Percebi que o mar não me recusara por crueldade, mas porque me queria mostrar novos caminhos... 
Recusara-me porque ainda não era tempo de partir.

Porque existem dores que nos querem afundar, mas também existem marés invisíveis que insistem em trazer-nos de volta à margem...mas fica sempre algum mal-entendido por esclarecer: 
quando te confrontas com o mar, que peso têm todos os rios e ribeiros à volta??? (adiante não peneses tanto)

E, por mais estranho que pareça, naquele dia compreendi que a maior vitória não era ser levado pelo mar.

Era ter força para na areia chegar até ao bar da praia velha…

By pedro de melo janeiro de 2026, praia velha, s. pedro de muel

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O Fio da Navalha: Escrever Sem Medo

“O Fio da Navalha” é um reencontro com a escrita. Um espaço sem regras rígidas, onde as palavras surgem cruas, espontâneas e livres de máscaras. Não é diário, manifesto ou literatura: é simplesmente um lugar onde escrever significa viver, mudar e, se necessário, reescrever.

Aqui, os textos não são definitivos. Hoje dizem uma coisa, amanhã podem dizer outra, porque quem escreve também muda. Não interessam lugares, horas ou coordenadas. Interessa o momento e aquilo que merece ser dito.

Os temas serão pessoais: dúvidas, alegrias, dores, memórias, provocações e devaneios. Sempre na primeira pessoa, porque esconder o autor atrás de personagens deixou de fazer sentido.

Podes pegar neles, adpatar e reenviar, será publicada a tua versão... até que alguém se lembre de pegar nela e alterar. É um jogo talvez. 

Escrever no fio da navalha é cortar o medo. É expor pensamentos sem maquilhagem, aceitar contradições e avançar sem rede.

Voltei à escrita. Sem desculpas, sem moldes e sem medo.

 

lamina

crónicas distantes, sem tempo, sem nexo, para usares e abusares... copia, altera, faz tuas as palavras...
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Zangado com o mar
 
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by pedro de melo, aquele a quem roubaram o mar...

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