
HOJE LIBERTEI UMA BORBOLETA, ERA BRANCA... Há prisões quase invisíveis Demorei uns momentos até perceber efetivamente o que se passava: Uma borboleta debatia-se numa teia de aranha, presa por fios tão finos que quase desapareciam à luz, ainda fraca, da manhã. Quanto mais tentava libertar-se, mais se enredava. As asas, feitas para voar, tornavam-se o peso da sua própria prisão. Aproximei-me devagar e com cuidado, fui desfazendo aqueles fios frágeis que, afinal, tinham uma força assustadora para a borboleta. Quando ficou livre… voou, e desapareceu no horizonte sem olhar para trás, sem agradecer… só mais uma no meio de tantos mal agradecidos. As teias da vida Na vida, no dia-a-dia, também nós ficamos presos… de ilusões, de metas, de sonhos, de nós próprios… de tudo… nessa teia envolvente. Nem sempre por correntes visíveis, mas por medos, culpas, desilusões ou palavras que alguém um dia nos fez acreditar. São teias silenciosas que roubam a liberdade sem fecharem portas. Quanto mais lutamos sozinhos, mais sentimos que tudo se complica. E, por vezes, basta uma mão estendida para desfazer aquilo que parecia impossível. Libertar sem esperar recompensa A borboleta não ficou, não agradeceu. Não voltou. E isso nunca diminuiu a beleza daquele gesto, do devolver a liberdade! Há pessoas que passam pela nossa vida apenas o tempo suficiente para precisarem de ajuda. Depois seguem o seu caminho, levando consigo uma liberdade que já não lhes pertence apenas a elas. Nem todas as boas ações regressam em forma de reconhecimento, mas todas deixam uma marca em quem as pratica. Voar é o destino Talvez a maior lição daquela pequena borboleta tenha sido esta: ninguém nasceu para viver preso. Todos fomos feitos para procurar a luz, abrir as asas e seguir o nosso caminho. No fim, libertar alguém das suas teias é também libertar um pouco daquilo que nos prende por dentro. Porque cada gesto de compaixão faz voar duas almas: a que recupera a liberdade... e a que descobriu a beleza de a oferecer. Era branca, a borboleta! by pedro de melo, 2026
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O Fio da Navalha: Escrever Sem Medo Porquê "O Fio da Navalha"? A pergunta é legítima. Porque não “O caderno das ideias”? Ou “As palavras soltas”? Ou até “Crónicas com café”? Mas não. Tem de ser este título: “O fio da navalha.” E porquê? Porque chegou o momento de cortar o mal pela raiz. Sem hesitação. Com precisão. E, verdade seja dita, porque não há tesouras cá por casa — ou pelo menos nunca estão à mão quando mais se precisa. Mas navalhas… essas aparecem sempre. Mesmo que sejam metáforas afiadas. Este é um reencontro com a escrita. Não tardio, não forçado. Simplesmente chegou a hora. Porque as coisas acontecem quando têm de acontecer. Nem antes, nem depois. O tempo é sábio. E às vezes, para voltar a escrever, é preciso primeiro calar. É preciso viver. Um espaço de vida — com vida “O fio da navalha” não é um diário. Nem um manifesto. Nem sequer um espaço com rumo certo. É um lugar onde as palavras serão cruas, espontâneas, talvez até desajustadas. Não por rebeldia, mas por autenticidade. Este será um espaço vivo. E como tudo o que está vivo, pode mudar. Crescer. Adaptar-se. Ou simplesmente desaparecer por uns tempos, sem explicações. Não haverá regras. Só uma:
Porque aqui, os textos podem ser alterados. Atualizados. Rasurados. Hoje fazem sentido, amanhã talvez não. A escrita não é monumento de pedra — é carne e osso. É respiração. É momento. E se algo for reescrito, que seja. Sem pedido de desculpas. Sem necessidade de coerência. Porque a vida também não o é. O que não vais encontrar aqui Não vais encontrar localizações geográficas. Nem marcas de tempo. Não interessa onde estou, a que horas escrevo, ou em que canto do mundo me sento para despejar estas linhas. O espaço é o agora. E o agora é onde a palavra acontece. Se houver mesmo curiosidade… pergunta. Quem sabe até respondo. Ou não. Porque, no fundo, nem sempre interessa onde o corpo está, se a alma está longe. Assuntos que doem — ou que salvam Neste espaço, os temas serão próximos. Pessoais. Até egoístas. Porque, por muito que se tente disfarçar, todos escrevemos sobre nós. Mesmo quando dizemos que não. Mesmo quando usamos metáforas. Mesmo quando inventamos personagens, realidades ou histórias. É uma espécie de confissão. Uma conversa entre egos — ou cegos, como preferirem entender. Podem surgir reflexões banais, dores profundas ou devaneios ridículos. E está tudo certo. Porque isto não é jornalismo, nem literatura. É escrita crua. Esfolada. Sem rascunho. Terceira pessoa? Não, obrigado. Ah, sim. Quase me esquecia. Uma certeza absoluta: não dá para escrever na terceira pessoa. Já tentei. Em tempos. Criei máscaras. Personagens. Vozes distantes. Quis escrever como se fosse outro, apontar verdades, lançar provocações, sem que soubessem que era eu. Queria esconder-me. Proteger-me. Ou talvez enganar-me. Mas não deu. O ego é maior. A primeira pessoa impõe-se. Grita. Reclama espaço. E é essa que fica. A que entra com as botas sujas e se senta sem pedir licença. A que diz o que pensa, mesmo quando não devia. A que fecha a porta, no fim, e fica em silêncio. Sim, será sempre essa primeira pessoa — a que escreve, a que sente, a que parte e volta. Cortar o medo, não as pontas Este “fio da navalha” não serve para cortar pontas espigadas. Serve para ir fundo. Para abrir espaço onde o medo mora. Para expor dúvidas, angústias, alegrias… sem maquilhagem. Porque escrever, para mim, é despir-me devagar. Palavra a palavra. Corte a corte. E se às vezes sangra… é sinal de que ainda estou vivo. Talvez este espaço seja isso mesmo: uma ferida aberta. Mas cuidada. Com intenção. Com arte. Conclusão: E tu, escreves no fio da navalha? Cada um tem o seu fio. O seu limite. O seu ponto onde a coragem encontra o medo e decide avançar. Este é o meu. Talvez escreva para mim. Talvez para ti. Talvez para ninguém. Não interessa. O que importa é que voltei. E volto assim: sem desculpas, sem moldes, sem rede. Se leres hoje… volta daqui a um mês. Prometo que já não será igual. Porque eu também já não serei. |
by pedro de melo, 2019 |

INDEX CULINARIUM XXI, Divulgação Global






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