JARDIM

Rita versus Abel: O Tempo que Passa e Não Volta

Dois caminhos paralelos… que quase se tocaram

Ela passou ao lado.

Rita, embriagada por promessas e sonhos que lhe ofereceram conforto, estabilidade e aceitação, seguiu o rumo que tantos outros traçaram antes dela. Casou-se, teve filhos, construiu casas. Viveu a vida que se esperava que vivesse — ou, pelo menos, aquela que os outros sonharam para si.

Cumpriu o papel. Satisfez desejos alheios, assinou contratos invisíveis de felicidade partilhada, onde o amor era muitas vezes subentendido e raramente questionado. E, adormecida nos sonhos dos outros, foi sobrevivendo. Dia após dia. Silenciosamente.

Ele também passou ao lado…

Abel, por sua vez, também passou ao lado. Mas de outro modo.

Embriagado por ideais, por metas difusas e sonhos com cheiro a liberdade, atirou-se à vida com as mãos nuas, à procura de um lugar no mundo onde pudesse gritar "sou eu!". Lutou. Lutou muito. E lutou contra tudo — o tempo, os outros, o destino, e, principalmente, contra si mesmo.

Casou-se, sim. Mas não teve filhos. Nem construiu casas. As suas raízes eram inquietas demais para se fixarem. Era nómada por dentro. E, entre batalhas inglórias e conquistas efémeras, fez do espelho o seu templo. O narcisismo servia-lhe de armadura, e o ego era o combustível que lhe dava alento.

"Sou eu, eu, e só eu." Mais ninguém. O mundo era demasiado pequeno para caber alguém além do próprio Abel.

Memórias furtivas à janela do tempo

Com o passar dos anos, como que por magia ou ironia, Rita e Abel voltaram a cruzar-se. Primeiro, sem querer. À janela de um acaso qualquer, entre silêncios e olhares que diziam mais do que palavras. Depois, mais vezes. E, de repente, esses encontros tornaram-se compromissos. Quase rituais.

Memórias antigas começaram a ser reavivadas. Risos guardados, toques imaginados, conversas interrompidas pelo que a vida não deixou acontecer. Tinham sido dois corpos que passaram um pelo outro sem tempo, dois corações que nunca bateram no mesmo compasso… mas que nunca deixaram de se reconhecer.

E ali estavam novamente. Mais velhos. Mais cheios de histórias. Mais feridos também.

A realidade dói. E bem.

As experiências, essas, deixaram marcas profundas. Cicatrizes nem sempre visíveis. Mas sentidas. E no fim, aquilo que os unia já não era desejo, nem paixão — era algo mais fundo: a consciência de que havia uma história que nunca chegou a ser escrita.

Rita tinha vivido para os outros. Abel tinha vivido para si. Nenhum deles viveu para "nós".

E isso, agora, doía.

Porque há memórias que não se recuperam. Momentos que não se repetem. O tempo, esse ladrão silencioso, tinha-lhes roubado a juventude, os sonhos partilhados e as hipóteses. Deixara-lhes apenas fragmentos de uma vida que podia ter sido… mas não foi.

Talvez seja melhor assim — pensava Rita. Talvez tenha de ser assim — murmurava Abel.

Mas aceitar isso… nunca foi fácil.

A noite do grito

E então… aconteceu.

Numa noite qualquer, o silêncio foi rasgado. Um grito. Um som que não era só voz, mas desespero cru. Uma dor vinda das entranhas. Era Rita. Ou era Abel? Talvez fosse os dois.

Uma voz carregada de lágrimas, de anos calados, de perguntas sem resposta. Aproximou-se devagar, com receio de incomodar… mas querendo ser ouvida. Trazia nas mãos o tempo roubado, o amor não vivido, as palavras nunca ditas.

Queria espaço. Queria tempo. E foi-lhe oferecido.

Não por pena, mas por respeito. Por reconhecimento. Porque, no fundo, entre todas as diferenças, ambos sabiam que se tinham amado — à sua maneira — naquele breve instante em que os olhares se tocaram num passado longínquo.

E esse amor, ainda que breve, foi verdadeiro. E isso… ninguém podia apagar.

Quando o passado pesa mais do que o presente

Não há nada mais difícil do que olhar para trás e perceber o que se perdeu sem nunca se ter tido. Rita e Abel eram reflexos dessa realidade. Foram o "quase". Foram o "talvez". Foram o "e se".

Mas também foram coragem. Coragem para reconhecer o vazio. Para aceitar que erraram. Para se perdoarem. E para, finalmente, libertarem-se.

Porque há histórias que não precisam de final feliz — precisam apenas de ser contadas.

Conclusão: Seremos todos um pouco Rita e Abel?

Talvez todos sejamos, em parte, Rita ou Abel. Talvez tenhamos todos passado ao lado de alguém, de alguma escolha, de alguma vida. Talvez ainda estejamos a correr atrás de promessas ou a fugir delas.

Mas o que realmente importa é reconhecer quando estamos a viver a vida dos outros… ou a fugir da nossa.

E quando o grito vier — porque virá — que tenhamos a coragem de o escutar. E que, mesmo que tarde, possamos dar espaço ao que dói. Porque só assim, quem sabe, conseguimos finalmente respirar. E seguir.

Nem que seja… para outra ilha.
by estorias

Grito de Raiva

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