abobora

Abóbora: a alma alaranjada entre mundos e tempos

Introdução aos géneros das abóboras

Quando falamos de abóbora, estamos na verdade a referir-nos a um conjunto diversificado de géneros botânicos que muitas vezes se confundem no uso popular: Lagenaria (cabaças-garrafa), Citrullus (que inclui melancias e colocíntimas) e, sobretudo, Cucurbita — o género que congrega aquilo a que comumente chamamos abóbora: abóbora-jardim, curgete, abóbora-gigante, abóbora-ovo, abóbora-folha-de-figueira, entre outras. E, como tantos outros vegetais que muitos julgam “antigos”, a abóbora verdadeira tem origem no Novo Mundo.

Por volta de meados do século XVI, Hernando de Alvarado, militar espanhol, relatou que viu “melões” a crescer fossem onde fosse a expedição de Coronado no sudoeste americano. Sabia-se, porém, que os melões do Velho Mundo só viriam com os europeus — logo, aqueles frutos deviam ser abóboras. Os espanhóis chamavam-lhes “melões” por falta de um nome adequado.

O termo “abóbora” no mundo antigo referia-se frequentemente às cabaças do género Lagenaria, cultivadas como recipientes rígidos. Embora essas cabaças ocorressem no Novo Mundo, tinham sido provavelmente introduzidas por rotas antigas. Nas civilizações egípcia e mediterrânica, obras de arte e relíquias demonstram que as cabaças eram usadas para armazenar água e sementes — não tanto como alimento principal.

Como Little Pauly observa, nos textos clássicos, “abóbora” nem sempre significava aquilo que entendemos hoje. A cabaça era mencionada em utensílios ou recipientes. Na sátira de Sêneca sobre o imperador Cláudio, ele transforma o imperador numa “abóbora”, não num deus — uma brincadeira que usa o imaginário da cabaça como objeto grosseiro e ocioso.

A chegada ao Velho Mundo

Antes da descoberta da América, não há evidência segura de abóboras no Velho Mundo: nem no Egito, nem na Bíblia, nem nos registos botânicos antigos. A primeira vez que a planta de Cucurbita surge nos relatos europeus é após o regresso de Colombo. Ele mencionou plantações em Cuba e notou frutos que não identificava — foi a primeira descrição europeia da abóbora.

Nos séculos seguintes, os botânicos observaram com curiosidade estas novas plantas e começaram a desenhar e classificar variedades. As formas eram variadas: algumas semelhantes a estrelas, outras pareciam limões, peras, marmelos — a natureza “brincava com as formas”, como bem notou Elsholtz.

Em Portugal, a abóbora adaptou-se com relativa facilidade ao clima temperado, usando-se nas hortas rurais como complemento vegetal, sobretudo para sopas, purés e recheios. Hoje, o consumo ibérico tem vindo a crescer. Segundo um estudo recente, o consumo de abóbora peninsular aumentou cerca de 20 % em três anos.

Usos gastronómicos: da modéstia ao luxo doce

No Velho Mundo, demorou-se a ver na abóbora um ingrediente digno de mesa “nobre”. Olivier de Serres chegou a chamá-la de “vingança de Nápoles e Espanha” — um comentário irónico à sua difusão repentina. Nas cozinhas tradicionais francesas, mantinha-se como sopa ou prato simples.

Em Portugal, a adaptacão foi paulatina, mas algumas variedades ganharam papel especial. Por exemplo, a Cucurbita ficifolia, conhecida por “gila” ou “chila”, é usada para preparar o famoso doce de gila, ingrediente essencial em sobremesas conventuais do Alentejo e Algarve.

As flores da abóbora também encontram lugar em saladas e pratos delicados; em Portugal, quase metade dos inquiridos numa pesquisa afirmou já ter consumido flores de abóbora (49 %) nas suas receitas.

Enquanto isso, no centro-norte da Europa, floresceu o óleo de semente de abóbora: particularmente famoso o óleo austríaco, escuro, intenso, usado em saladas e carnes frias — embora esse uso não seja corrente em Portugal, inspira os chefs que procuram sabores robustos.

A abóbora no quotidiano português

Hoje, em Portugal, a abóbora aparece em sopas reconfortantes no Outono e Inverno, purés cremosos, recheios doces e salgados, pratos de forno ou até conserva doce. Apesar de não ter o protagonismo do tomate ou da batata, muitos são os agricultores que continuam a cultivar variedades locais, sobretudo no interior e nas Beiras.

No Algarve já surgiu uma abóbora recorde chamada “Isidora”, que pesou cerca de 696 kg, demonstrando que, em solos férteis, a abóbora pode atingir proporções impressionantes.

Atualmente, segundo dados de mercado, o setor nacional de abóboras, squash e cabaças viu uma ligeira retração em valor, embora o consumo interno continue com sinais de fortalecimento.

Além disso, existiu em Portugal tradicionalmente um uso simbólico da abóbora: nas festividades de Pão-por-Deus ou Samaín, nas Beiras, crianças percorriam ruas com abóboras ocas esculpidas (“cocas”) com velas acesas, evocando rostos luminosos — uma tradição popular enraizada no imaginário rural português.

Reflexão final: da semente ao sabor, da América ao lar português

A abóbora é um exemplo fascinante de como um fruto longínquo pode ser domesticado, amado e reinterpretado. Veio das Américas, foi estranho à cozinha europeia, ganhou cor, polpa e sabor, atravessou oceanos e tornou-se parte da mesa portuguesa.

Essa trajetória é símbolo daquilo que a gastronomia é sempre capaz de fazer: ligar mundos, criar identidades, transformar o novo em familiar.

Quando provamos uma sopa de abóbora cremosa ou um doce de gila suave, comemos também uma história — da América antiga ao convento alentejano, do campo à mesa da cidade.

E, no fundo, percebemos que a abóbora é, mais do que alimento, uma narrativa de adaptação e encanto.

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