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Moralidade e Eugenia: O Sonho Ambivalente de John Harvey Kellogg

Entre a ciência, a fé e o corpo

Apesar de todo o sucesso material que alcançou, John Harvey Kellogg nunca abandonou a preocupação com a moralidade e o bem-estar espiritual. Apenas mudou a forma como a expressava. Corria de conferência em conferência, discursando sobre saúde, disciplina e fé; abriu uma filial do Sanatório na Florida em 1931 para proteger os pulmões frágeis e conviver, mesmo no Inverno, com a elite rica que tanto apreciava; equipou as suas clínicas com tecnologia de ponta. Contudo, no fundo, mantinha-se fiel a um ideal simples: viver em harmonia com a criação de Deus, em retidão e obediência aos mandamentos bíblicos.

Esse ideal refletia-se também em ações concretas. Kellogg apoiava obras missionárias e iniciativas filantrópicas, como a fundação de um posto avançado do Sanatório num bairro pobre de Chicago. Até à sua excomunhão, via-se como parte de um esforço global de renovação espiritual e social.

A gula como pecado e a dieta como redenção

Para Kellogg, a gula era a raiz do mal. Criticava os seus compatriotas, que viviam como se comessem para existir, em vez de existirem para se alimentar de forma saudável. A alimentação, acreditava, nunca poderia ser um fim em si mesma. A dieta, a higiene intestinal e o autocontrolo corporal eram instrumentos para algo maior: a reforma social e moral, a criação de ordem num mundo em caos, um meio de salvação.

Esse olhar ultrapassava a mesa. Kellogg acreditava que a forma como se comia, como se vivia e até como se educava era inseparável da própria sobrevivência da humanidade. O corpo era templo, mas também laboratório de uma sociedade regenerada.

A sedução da eugenia

No início do século XX, quando a eugenia ganhava força nos Estados Unidos e na Europa, Kellogg deixou-se seduzir por essa promessa de renovação social através da biologia. Em 1914, fundou a Race Betterment Foundation com lucros das ações da Kellogg’s. A organização financiava iniciativas educativas, intervinha quando outras obras suas estavam em crise e organizava conferências nacionais sobre o "melhoramento da raça". Reunia, nesses eventos, alguns dos cientistas mais prestigiados do período.

Apesar de rejeitar as formas mais brutais de eugenia – como a esterilização forçada, então legalizada em muitos estados norte-americanos – Kellogg defendia uma aristocracia da saúde. Acreditava que, em seis gerações, uma elite formada de "Apolos e Vénus" poderia regenerar a humanidade, eliminando a necessidade de hospitais e prisões. Um sonho grandioso, mas profundamente ingênuo.

Entre o ideal e a sombra do racismo

As descobertas da genética nos anos 1920 começaram a enfraquecer as pretensões científicas da eugenia. O racismo evidente em muitos dos seus defensores acabou por marginalizar o movimento. Ainda assim, Kellogg manteve-se firme, chegando a legar grande parte da sua fortuna à Race Betterment Foundation quando morreu.

A sua visão, contudo, permaneceu ambígua. Não é claro se falava de toda a humanidade ou apenas de uma "raça nórdica" idealizada, como defendiam tantos darwinistas sociais da sua época. Vivia preso entre a fé no progresso humano e o medo da degeneração da civilização moderna. Chegou a afirmar, já idoso, que a alegria de viver teria sido maior se a humanidade tivesse permanecido na simplicidade dos antepassados, em vez de se perder nas conquistas ilusórias da civilização.

O dilema moral dos reformadores

Kellogg enfrentava o dilema clássico de muitos reformadores sociais conservadores: queria ajudar os mais frágeis, mas temia perpetuar aquilo que considerava maus traços hereditários. Defendia medidas como a proibição do casamento para alcoólicos, criminosos habituais ou pessoas com histórico de doenças mentais, ecoando ideias semelhantes às de August Forel, na Suíça.

Ao mesmo tempo, acreditava na força da educação e do exemplo. Adotou filhos para demonstrar que, com disciplina e cuidado, era possível formar cidadãos mais fortes e virtuosos. No fundo, oscilava entre a compaixão cristã e uma obsessão pelo "melhoramento" que o aproximava das ideias eugenistas mais polémicas do seu tempo.

Vegetarianismo, animais e espiritualidade

A moralidade de Kellogg não se limitava aos humanos. O seu vegetarianismo era sustentado por um profundo respeito pelos animais. Citando Pitágoras, argumentava que comer carne brutalizava o ser humano, rebaixando os instintos. Para ele, cada criatura tinha um papel no plano divino da criação.

A imagem que usava era poderosa: o cordeiro prestes a ser degolado que, se pudesse falar, imploraria pela vida. Perguntava se o talhante ainda teria coragem de consumar o ato. Este tipo de retórica, profundamente bíblica e emotiva, aproximava-o de muitos vegetarianos modernos que defendem os direitos dos animais.

Na prática, porém, também cedeu à lógica da eficiência. As milhares de galinhas do Sanatório viviam em condições relativamente livres para a época, mas a escala já prenunciava o futuro da pecuária industrial. Kellogg, que tanto criticava o caos do presente, ajudou a pavimentar o caminho para uma modernidade alimentar ainda mais mecanizada e distante da natureza.

Um legado de luz e sombra

John Harvey Kellogg foi um homem de contradições. Pregava a simplicidade, mas convivia com milionários. Defendia a pureza moral, mas sonhava com uma aristocracia genética. Lutava contra a gula, mas fundou uma indústria que prosperou no açúcar. Respeitava os animais, mas contribuiu para o avanço da criação industrial.

O seu legado permanece ambivalente: por um lado, inspirou movimentos de saúde natural, vegetarianismo e bem-estar; por outro, deixou marcas ligadas à eugenia e à industrialização alimentar.

Hoje, olhar para Kellogg é olhar para o espelho da modernidade. Ele encarnou o sonho de uma humanidade regenerada pela disciplina, mas também a ilusão de que a ciência e o mercado poderiam resolver dilemas morais ancestrais. No fim, os seus ideais, nascidos do sofrimento de um tempo de mudanças rápidas, foram absorvidos pela própria modernização que ele tantas vezes temia.

Kellogg recorda-nos que a fronteira entre reforma e opressão, entre idealismo e pragmatismo, é sempre ténue. A sua vida foi um laboratório moral onde a fé, a ciência e a economia se cruzaram — deixando-nos perguntas que ainda hoje não têm respostas fáceis.
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